João Felício Quirino
“Onde fica Birigüi?”. Eis a pergunta que um birigüiense habitante de São Paulo é obrigado a responder milhões de vezes. Respostas clássicas: “A 10 quilômetros de Araçatuba”, “uns 530 quilômetros da capital”, “no noroeste do estado”, “não muito distante da fronteira com o Mato Grosso do Sul”. Muitas vezes o interlocutor, posando de entendido, chuta (e erra): “Pelos lados de Ribeirão Preto, né”, “Fica em Minas, certo?”. O mais gostoso para um birigüiense, porém, é quando o sujeito diz: “Araçatuba? Também não conheço...”. Ao lado do desconsolo por saber-se ignorado do mapa, aflora um doce sabor de vingança ao notar que as cidades rivais são irmãs gêmeas na condição de desconhecidas de muitos paulistanos.
Mas, claro, há quem saiba das coisas. “Sim, Birigüi fica ao lado de Araçatuba, no noroeste do estado”, “Birigüi, a Cidade Pérola”, “capital nacional do calçado infantil”, “conheço: terra do Bandeirante, do biribol, do Paulinho McLaren, do Reynaldo Gianecchini”, “Êta, lugarzinho quente!”. E há também o sujeito que tem certeza do comentário e se assusta quando é corrigido: “Como assim, Marco Bianchi, Paulo Bonfá e Peterson Foca nunca viveram em Birigui?!”.
A pergunta subseqüente, via de regra, é: “O que significa Birigüi?”. Resposta didática: “Quando os fundadores chegaram, a terra era infestada por um mosquito chamado birigüizinho”. Segue-se uma risadinha marota do perguntador, correspondida por um sorrisinho envergonhado do nativo: “Pois é, minha cidade tem nome de mosquito”.
Tenho a impressão de que Birigüi resume bem o Brasil: os povos que vieram para cá (japoneses, espanhóis, italianos, libaneses, alemães); a passagem da agricultura para a indústria, cada vez mais moderna e pujante; a desigualdade social; a política impregnada pelo clientelismo, reveladora da lógica do coronelismo, enxada e voto, tão bem demonstrada por Vitor Nunes Leal; a tentativa de tantos conterrâneos de fazer a vida fora do país (Estados Unidos, Portugal, Japão, Itália, Inglaterra) e o movimento de retorno. Até Nicolau da Silva Nunes, o fundador, me vem à cabeça como um Pedro Álvares Cabral a chegar de trem e se deparar com índios, no caso, caingangues. Sua gente é uma expressão perfeita do caipira, um dos povos que compõem o grande povo brasileiro, conforme Darcy Ribeiro.
Ontem foi comemorado o centenário da minha querida terra natal. Para escrever sobre ela, ocorreu-me de pronto a frase de Tolstoi – “Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia” – e tentei vislumbrar o que há de universal na “minha” cidade. Reli um texto que escrevi por ocasião do 456º aniversário de São Paulo e me chamou a atenção o seguinte trecho: “São Paulo me ajudou a amadurecer. (...) Amadurecimento significa virar dono do próprio nariz e do próprio destino, desenraizar-se sem renegar ou amaldiçoar as raízes”. No texto, lembrei da oscilação entre amor e ódio que senti pela capital paulista. Agora, lembro do mesmo sentimento em relação à “terrinha”. Quando não agüentava mais viver em Sampa, concebia Birigüi como a Pasárgada de Manuel Bandeira e me sentia o próprio Gonçalves Dias declamando “Canção do Exílio”. “Saudades da Minha Terra”, música de Goiá e Belmont, ganhou status de hino pessoal. De volta a Birigüi, no entanto, as coisas não foram exatamente como eu idealizava. Aos poucos, tudo passou a me incomodar – o pensamento conservador predominante, a visão de paraíso fundada num certo hedonismo machista e xucro (muié e cerveja, muié e cerveja, eis o mantra do único prazer existente), a cultura de ostentação de riqueza, a religiosidade exacerbada, e, até mesmo, a quase onipresença da música sertaneja. Só que muito do que os olhos veem não se deve à paisagem, mas sim aos próprios olhos. Por algum mecanismo psicológico que Freud deve explicar, eu, que valorizava tudo em Birigüi na mesma intensidade e proporção que demonizava em São Paulo, inverti os pratos da balança. Passei a ter saudade da saudade que sentia. O regresso à metrópole virou uma obsessão e a vida na “terrinha”, um tormento. É certo que o contato com a família e com os amigos era prazeroso, só que vinha com um gostinho de fracasso, pela dependência dos recursos dos pais.
De volta a São Paulo, acho que, enfim, desvendei a chave da minha eterna insatisfação. Concebendo a terra natal e a de adoção como antagônicas, passei a aceitar como natural a contradição de, ao mesmo tempo, desejar o que tanto uma como a outra me ofertam de bom, assim como a de negar o que em ambas me desagrada. O mais engraçado – e aprazível – é que, quando quero me ver livre do caos metropolitano, é a simplicidade interiorana que se apresenta como alternativa; e, quando me vejo entediado da mesmice birigüiense, corro para a agitação paulistana. Criei duas raízes.
O psicólogo Contardo Calligaris, analisando a modernidade, escreveu que “a família originária, da qual pertencemos, com certeza é o grupo contra o qual afirmamos nossa independência” e que essa afirmação confronta a “aventura arriscada da liberdade” com o “conforto opressivo das tradições”. Na verdade, queremos os dois: a liberdade e o conforto. Eis o conflito familiar primordial: ter presente o amor dos pais e a distância necessária para andarmos sozinhos. Quem sabe, a família não seja, por excelência, o habitat da relação de amor e ódio. Assim, pacificando esse conflito, creio ter construído dois lares: um, cosmopolita; o outro, provinciano. E me tornei, como diz Tom Zé, bilíngüe: falo a língua da metrópole e a língua do interior.
Retomando Tolstoi, talvez o escritor russo quisesse dizer que pintar a própria aldeia significa pintar as raízes, os mais íntimos elementos constitutivos de cada um de nós. Algo que todos os seres humanos têm, universal e independentemente de onde tenham nascido e de onde vivam. Disso concluo: quando me perguntarem onde fica Birigüi, darei alguma daquelas respostas clássicas. No entanto, intimamente, pensarei: em certo sentido, fica dentro de mim.
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Em homenagem a Birigüi, peço licença à reforma ortográfica para preservar o trema em todo o texto. Além da diferença do som (prefiro ser birigüiense a biriguiense), gosto de imaginar os pontos sobre o U e o I como se fossem três mosquitinhos. Três birigüizinhos.